A Biblioteca de RaquelIlustríssima – A Biblioteca de Raquel http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br Raquel Cozer Mon, 18 Nov 2013 13:27:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 O inimigo número um de Macondo http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/04/18/o-inimigo-numero-um-de-macondo/ http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/2012/04/18/o-inimigo-numero-um-de-macondo/#comments Thu, 19 Apr 2012 00:54:09 +0000 http://abibliotecaderaquel.blogfolha.uol.com.br/?p=870 Continue lendo →]]> Nunca tinha ouvido falar em Andrés Caicedo quando esbarrei na mostra dedicada a ele na Luis Angel Arango, a principal das megabibliotecas de Bogotá, no bairro histórico da Candelária.

Tá, é claro que consultei o oráculo antes de admitir minha ignorância por aqui (vai que ele era tipo um neo-Bolaño e só eu não sabia). Depois de um Google, todo mundo é valente.

Não encontrei nada nos jornais e sites literários nacionais –pra não dizer que não encontrei nada mesmo, teve essa brevíssima citação no Noblat, e logo aparecerão leitores com links, porque a gente nunca deve duvidar do conhecimento dos leitores. Mas, por ora, até o verbete na Wikipedia em português está parcialmente em espanhol e sob o aviso de “fontes duvidosas”.

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Esse magrelinho é ele mesmo

A história de Caicedo é tão boa que parece de mentira –escrevi sobre ela no  Diário de Bogotá, na “Ilustríssima” (link para assinantes) do domingo passado.

Ele teve só dois livros publicados em vida. O primeiro, “El Atravesado”, saiu em 1975, quando ele tinha 23 anos, em edição paga pela mãe. Do segundo, “¡Que Viva la Música!”, ele recebeu a primeira cópia, editada pela Colcultura, na tarde de 4 de março de 1977. Poucas horas depois ingeriu 60 comprimidos do calmante Seconal. Tinha 25 anos.

A chave para o suicídio estava no romance, no qual a protagonista loira e rica explora o potencial festivo de Cali. “Viver mais de 25 anos é uma vergonha”, diz o texto.

Vinte e cinco anos foram suficientes para que deixasse três romances pela metade, além do concluído (e hoje famosíssimo na Colômbia) “¡Que Viva la Música!”, vários roteiros de cinema (quatro dos quais levou a Hollywood em 1976, com a esperança, fracassada, de vender ao diretor de filmes B Roger Corman), um porção de peças e contos, e ainda cartas a perder de vista.

As cartas ele achava que escrevia tão bem que guardou, em papel carbono, cópias de todas as que enviou a familiares e amigos. Boa parte delas está publicada em coletâneas na Colômbia.

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Até a Remington foi parar na mostra

Se há algo em comum entre Caicedo e Bolaño, já que falei dele, é o reconhecimento tardio. Sendo que Caicedo demorou ainda mais a cair nas graças internacionais a partir da contagem post-mortem. Só em 2009, quando saiu a autobiografia “Mi Cuerpo Es Una Celda” pela Norma, editora de toda a sua obra, a história do colombiano ficou conhecida no Chile e na Argentina.

Hoje ele está traduzido na Itália e na Alemanha, com edições de seus livros previstas para breve em língua inglesa e francesa. Por aqui, permanece inédito.

A exposição na Luis Angel Arango, “Morir y Dejar Obra”, mostra outras facetas dele, como os textos sobre cinema que escreveu para a revista “Ojo al Cine”, que ele também criou, e  cartazes que desenhou nos tempos do Cineclube de Cali, que fundou em sua cidade natal.

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Cartaz da mostra conta que, depois que Andrés morreu, o pai encontrou romances, peças, críticas e cartas, das quais ele fazia cópias em papel carbono

Fiquei curiosíssima ao sair da mostra. Passei na Luvina, livraria fofa numa esquina tranquila da badalada Macarena (confesso que não achei a Macarena tão badalada quanto dizem os guias, mas o fato de tê-la conhecida na Páscoa numa cidade onde a população leva o catolicismo a sério pode ter influenciado). Descobri que a Norma não distribui para pequenas livrarias.

Acabei comprando num sebo, pouco antes de vir embora. Achei a edição simplinha para uma grande editora e depois vi que era um livro pirata (eles fazem muito isso na América Latina hispânica; até fiz um post sobre livros piratas em Lima nos primórdios do blog). Um livro bem acabadinho, até, com ficha catalográfica e tudo, informando que “é proibida a reprodução total ou parcial sem permissão por escrito da editora”.

Estou lendo, gostando. Entendendo por que Caicedo, na definição do escritor chileno Alberto Fuguet, é o inimigo número um de Macondo –o texto dele, urbano, moderno, não tem um resquício do realismo fantástico que tornou famoso seu conterrâneo Gabriel García Márques.

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Um dos amigos de Caicedo dos temos de “Ojos al Cine”, Luis Ospina –o curador da mostra–, fez um documentário sobre ele, do qual se encontra trechos no YouTube.

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E disponibilizou também a única entrevista em vídeo que se conhece do autor.

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